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Revista Invicto
Editora Esfera BR Mídia
Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
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Sou do tempo da chuteira preta e da bola marrom. Sim, um dia as chuteiras foram pretas e as bolas, marrons. O jovem torcedor pode imaginar a dificuldade que era assistir a um jogo de futebol pela TV em preto e branco, com uma bola marrom, sem contraste algum com os tons cinzas da transmissão, disputada por 22 homens de chuteiras pretas. Mas não conhecíamos coisa melhor. Para quem não estava no campo – esse, sim, o maior espetáculo da Terra – era assim mesmo uma superprodução hollywoodiana em technicolor.
Mas a bola marrom era chutada pelas chuteiras pretas de Pelé, Coutinho, Didi, Djalma Santos, Rivellino, Garrincha e, voltando um pouco, do belo Heleno de Freitas, que vi jogar no estádio Caio Martins, em Niterói, na minha doce meninice – e, por isso, o futebol de ontem era tão multicolorido, tão empolgante, tão sincero e autêntico.
A chuteira preta é o ícone maior desse futebol de sonhos, que hoje só se vê nos arquivos embolorados das TVs e nos museus do futebol. Quase não há mais chuteiras pretas em campo. Os Adaílsons e Maicons de hoje só usam chuteiras verde-limão, vermelhas, amarelas. Um cinemascope de chuteiras em busca do melhor contrato. E eles estão longe de ter com a bola a mesma amizade colorida dos velhos craques de chuteiras pretas. A chuteira preta, que dava calo no pé, frieira e unheira, é a prima pobre, mas muito mais digna e talentosa, da chuteira amarela – que tem amortecedores “high-tech”, costuras de liga leve e o reluzente nome do patrocinador estufando o peito do pé. Naquele tempo, o nome inscrito nas chuteiras pretas, a suor e sangue, era Brasil S.A.
A chuteira preta não melhora o esquema tático de time algum, mas aumenta a vergonha na cara. Cheia de lama, então, ela virava arma de guerra. A chuteira preta era uma postura de vida, como frisou o jornalista Celso Arnaldo Araújo.
E, assistindo ao pobre milionário futebol de hoje, com suas chuteiras coloridas fosforescentes, dá saudade da postura viril dela, em cada nó de seu cadarço, em cada trava tosca de seu solado.
A chuteira colorida de hoje é companheira das correntinhas e dos brincos de ouro dos falsos craques, das “coletivas de imprensa” com jogadores de terceira, dos jogadores de quarta entrando em nossas casas, nas mesas-redondas de domingo, com o boné do patrocinador cobrindo metade da cara.
Sim, meus amigos, falta chuteira preta no Brasil de hoje – nem que seja para atingir os fundilhos de certos políticos que adoram as verdinhas.
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