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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
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Uma quase-lenda

Marcelo Guerrero

Ronaldo Luís Nazário de Lima é um daqueles tipos de fenômeno realmente difíceis de se explicar. Nascido no Rio de Janeiro e flamenguista de coração, escolheu a cidade de São Paulo e o Corinthians para viver o que talvez possam ser os últimos lampejos de uma carreira recheada de glórias e fracassos.

Conscientes de que o rechonchudo artilheiro não seria o suficiente, porém, para a tão desejada conquista da Taça Libertadores de 2010, ano do centenário do Timão, os corintianos foram buscar, com sabedoria, um argentino que fosse capaz de ajudar e dissimular as carências de um jogador próximo da aposentadoria. Descartando qualquer possibilidade de ter o galático Tevez por questões financeiras, começaram a sondar o mestre Riquelme, o excelente D’Alessandro e, finalmente, chegaram a Defederico – jovem revelação entusiasmada com a chance de jogar ao lado do maior goleador da história das Copas do Mundo.

Ronaldo é, certamente, uma quase-lenda, um dos esportistas mais conhecidos do planeta não apenas pelas arrancadas espetaculares e os gols que marcava. Com a mesma facilidade com que atravessava o campo com a bola dominada, conheceu os dois extremos em sua vida pessoal.

Com ou sem cabelo, com físico de atleta ou de burocrata barrigudo, Ronaldo teve a audácia de vestir a camisa do Real Madrid mesmo depois de marcar 47 gols em uma única temporada pelo Barcelona. Mantendo a frágil fidelidade que apresentou em outras circunstâncias, não pensou duas vezes antes de transferir-se para o Milan logo após a Inter tê-lo bancado durante duas lesões terríveis nos joelhos. Assim, indo de um canto para outro, foi o pior na final de uma Copa e o melhor logo na decisão seguinte. E chegou a pagar por uma noite confusa com travestis, apesar de que mais de uma modelo – seja ela Milene Domingues, Daniella Cicarelli, Raica Oliveira e Bia Anthony – seria capaz de sair beijando as dobras de seu gordo abdome ou as cicatrizes de suas rótulas danificadas.

Da mesma maneira que é capaz de driblar com a perna esquerda ou direita, todos parecem pensar da mesma forma na hora de julgá-lo: para os torcedores é ídolo se balança as redes e vilão se erra; para os patrocinadores é um rosto lucrativo ou uma péssima imagem dependendo dos acontecimentos; para a imprensa é objeto de adoração ou chacota com a mesma frequência... No Brasil, convenhamos, são assim com qualquer um: construíram uma estátua em homenagem a Ronaldinho Gaúcho e logo a colocaram abaixo depois da trágica participação na Copa da Alemanha, em 2006.

Instável, talvez, seja a palavra mais adequada para definir Ronaldo. Inconformado é outra: saiu por baixo de todos os clubes que defendeu, se encheu da Holanda, bateu de frente com Hector Cúper na Itália e com Fabio Capello na Espanha, cansou-se de apelar aos céus para recuperar-se fisicamente, brigou com todas as namoradas... Submeteu-se até a uma lipoaspiração, incomodado com a própria aparência. Para completar, apareceu um homônimo português muito mais alto, rápido e bonito.

Seguiu à risca os primeiros passos de Romário em solo europeu: PSV e Barcelona. Continuou sua trajetória entre poderosos e galáticos, mas longe de fazer o que o baixinho fazia na pequena área. Cuidado: se contarmos os gols que marcou em amistosos e treinos, como fazem os brasileiros, talvez já esteja perto dos mil, já que é o segundo maior artilheiro da seleção. Entretanto, será difícil desbancar o Rei. Pelé lidera a estatística e é o maior interessado em que ninguém o supere. Vai ver é porque podem cortar alguns de seus contratos publicitários.

Ronaldo jamais conseguirá alcançar um nível futebolístico comparável ao de Maradona; todos nós sabemos. Mas quando o assunto são escândalos, ganha de goleada.









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