logo
 
Sabado, 28 de Novembro de 2009
Matérias
 Invicto TV 
 Colunas
Luiz Felipe Santoro
linha
Salomão Schvartzman
linha
Marcos Caetano
linha
Luiz Felipe Pereira
linha
Marcelo Guerrero
linha
André Rossi
linha
Contato
 Capa
O astro circunspecto
Nesta rara entrevista, Zinedine Zidane fala da vida de aposentado, de seus projetos, da família, da conquista da Copa de 1998 e da polêmica cabeçada que deu em Materazzi na final da Copa de 2006
02/02/2009

Por Karim Ben Ismail, do “L’Équipe Magazine”

Aposentado há mais de dois anos, Zinedine Zidane segue brilhando por onde passa, agora graças à sua imagem, forjada ao longo de 17 anos de carreira. Viaja constantemente, seja promovendo seus patrocinadores pessoais, seja usando sua popularidade para apoiar causas humanitárias – no papel de embaixador itinerante do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) ou como patrono de iniciativas de cunho social realizadas por associações e ONGs, que atraem multidões nos quatro cantos do planeta.

Dentro do gramado, Zidane colecionou habilidades, como o excelente domínio da bola, do drible e do passe, além do chute preciso. Tinha uma visão de jogo muito apurada, parecia saber com antecedência como os jogadores se deslocariam, aonde a bola iria. Ditava como poucos o ritmo de jogo, tocava a bola com elegância, sem firulas: foi o “maestro”, a referência, em todas as equipes que defendeu. O maior futebolista francês de todos os tempos nunca se esqueceu, até a última partida, de que o futebol é um jogo, um espetáculo que deve dar prazer ao público. A sobriedade que mostrou jogando também se manifesta fora dos campos: avesso a festas e badalações, o craque gosta de preservar a vida privada, continua a falar pouco e a cultivar a retidão, a seriedade e a reserva. Isso lhe confere uma irresistível simpatia, o aproxima das pessoas. Exemplar sob os pontos de vista esportivo e humano, Zidane destoa da imensa maioria dos jogadores, que padecem de um mal provocado pela fama mal-administrada, a arrogância.

Zinedine Yazid Zidane nasceu em 23 de junho de 1972, no subúrbio de la Castellane, em Marselha, em uma família de imigrantes argelinos. Começou a jogar profissionalmente em 1989, com 16 anos, no Cannes. Em 1992 já estava no Bordeaux, onde ganhou o apelido de Zizou do técnico Rolland Courbis. Estreou na seleção francesa em 1994, em um amistoso contra a República Tcheca. Entrou a onze minutos do fim do jogo e marcou os dois gols que garantiram o empate. Zizou poderia ter jogado pela seleção argelina, caso o treinador à época, um certo Abdelhamid Kermali, não o tivesse recusado sob a alegação de que não era “suficientemente rápido”.
Em 1996, foi contratado pela Juventus e começou a brilhar em escala mundial. Ganhou a Supercopa da Europa (1996), o Mundial de Clubes (1996), o Campeonato Italiano (1997 e 1998) e a Supercopa da Itália (1997). Pela seleção, foi campeão da Copa do Mundo de 1998, destacando-se especialmente na final contra o Brasil, quando marcou dois gols. Dois anos depois, conquistou a Eurocopa, quando a França venceu a Itália na final por 2 a 1.

No Real Madrid, faturou o Mundial de Clubes (2002), a Liga dos Campeões (2002) e o Campeonato Espanhol (2003). Dentre os prêmios que recebeu, estão três eleições como o melhor jogador do mundo pela Fifa (1998, 2000 e 2003), além da Bola de Ouro em 1998, outorgada pela revista “France Football”. Em 2004, foi considerando o melhor jogador europeu dos últimos 50 anos em uma votação promovida pela Uefa, desbancando craques como Franz Beckenbauer e Johan Cruyff.

Após o fracasso da França na Eurocopa de 2004, Zidane resolveu deixar a seleção. Mas voltou pouco depois, ao ver a França sofrer para garantir uma vaga na Copa da Alemanha. Tudo estava planejado para uma aposentadoria definitiva no fim da Copa, e a presença da França na final contra a Itália pressagiava um adeus memorável para Zizou.

Tudo começou perfeitamente, com Zidane marcando um gol de pênalti nos primeiros minutos do jogo. Mas um raro momento de destempero deu outro matiz à despedida, transformando a celebração em hecatombe, o herói em vilão: a fatídica cabeçada desferida contra o italiano Materazzi, na prorrogação, quando a França pressionava. O craque recebeu o cartão vermelho e abandonou para sempre os gramados. A equipe francesa acusou o golpe e sucumbiu nos pênaltis.

A agressão fez correr rios de tinta, desatou discussões apaixonadas e julgamentos éticos que justificavam ou condenavam o gesto. A atitude surpreendeu, afinal Zidane sempre fora um jogador disciplinado e contido dentro do gramado, circunspecto. Sempre exprimira a virilidade de um modo sutil: por meio de um comportamento moral inflexível, sem destemperos físicos.

A proverbial circunspeção explica sua aversão a entrevistas, o que faz desta, concedida a Karim Ben Ismail, do “L’Équipe Magazine”, uma dádiva preciosa. Zidane fala da vida de aposentado, de seus projetos, da família, da conquista da Copa de 1998 e não se furta a dizer o que pensa sobre a cabeçada, tema que abordou em pouquíssimas ocasiões.

Desde a sua aposentadoria, você tem viajado muito. De onde você acaba de chegar?
Saí de Madri hoje e manhã, bem cedo, rumo a Mauberge, perto da fronteira da França com a Bélgica. Fui gravar um programa de TV [em favor de uma associação que luta contra as leucodistrofias, doenças geneticamente determinadas que afetam o sistema nervoso]. A cada ano, personalidades são convidadas para vencer um desafio. No ano passado, eu montei a cavalo, desta vez, eu pulei de pára-quedas. E estou em Paris. Fiz tudo isso hoje.

Você está sempre rodeado de gente. Quando Zinedine fica só consigo mesmo?
Eu não procuro esses momentos quando viajo. Vou para partilhar. Meus momentos de solidão acontecem em casa, quando as crianças estão na escola. Passo bastante tempo na cozinha, não tem ninguém, o telefone não toca. Fico sossegado com minha mulher. Coloco um pouco de música. Gosto muito de aproveitar esses momentos. Mas quando viajo, não vou com esse estado de espírito. Quando vou para a Argélia, por exemplo, sei que serão alguns dias bem cheios: das sete da manhã até tarde da noite. Fico disponível, ainda mais na Argélia, onde eu ia com meus pais.

Na sua última viagem para a Argélia, você foi com seu pai. O que você pôde ler nos olhos dele?
Nessa viagem aconteceu uma coisa incrível. Do avião, pudemos ver Bejaia, o lugar onde ele cresceu, o lugar onde nós íamos durante as férias, mas para ele foi difícil. Eu entendo isso, pois conheço a história dele. Ele se levantava às três ou quatro horas da manhã, e andava descalço durante horas para ganhar uns trocados. No avião, eu adorei olhar para ele.Voltar à Argélia com ele foi um grande orgulho. Ele foi viver longe de lá, trabalhou duro. Não foi um esforço em vão.

Você percebeu a emoção dele?
Sim, ele ficou emocionado e nervoso. Ele estava feliz e apreensivo ao mesmo tempo. Ele se perguntava se tudo iria correr bem. Foi ótimo. Tudo isso se notava no olhar dele, mas só que o conhece bem pode perceber.

Na França, ele dormia em uma cabana, em um canteiro de obras. E quando volta à Argélia, é recebido como um chefe de Estado...
Ele construiu tudo com a minha mãe. Eles criaram uma família. Não sou só eu, o jogador. Sou o último de uma família, na qual todos evoluíram, cada um no seu campo. Meus pais criaram homens, e uma mulher, minha irmã. Foi difícil para eles, mas eles olhem os frutos dos sacrifícios que fizeram. Nós, os cinco filhos, sabemos que devemos tudo a eles.

Você voltou diferente da Argélia?
Voltei realizado. Fazia mais de vinte anos que não íamos para lá. Queria muito fazer essa viagem com meus pais. Foi um orgulho muito grande para eles. Como quando eles viram o ficho ser eleito personalidade preferida dos franceses. Hoje, quero ser como meu pai.

Depois da aposentadoria, você dorme bem?
Durmo menos. Levanto-me mais cedo hoje, por causa dos meus filhos. Quando jogava, tinha pretextos para passar mais tempo na cama: treinos, jogos. Hoje, me levanto às seis e meia. É muito legal se levantar para ajudar a preparar as crianças para a escola.

Você sonha com a final perdida contra a Itália? Você se recrimina por ter caído na armadilha de um pilantra?
O termo “pilantra” não me agrada. O que aconteceu, aconteceu. Fiquei me sentindo muito mal em relação aos meus companheiros. Aliás, a primeira coisa que fiz foi pedir perdão a eles. Nos vestiários. Quando você pratica um esporte coletivo, não tem o direito de prejudicar os companheiros. Em relação ao público, também pedi desculpas, dois dias depois do jogo. Fora isso, não quero falar sobre auto-recriminação. Em um dado momento há circunstâncias que fazem com que as coisas aconteçam. Foi um momento ruim para mim. Estava preocupado com a minha mãe, que estava doente. Quando algo inesperado acontece, às vezes agente reage do modo errado.

Você falou do incidente com Lila, sua irmã?
Não. Não falo dessas coisas com ela. Isso está acabado. Na nossa família é assim. Com meus irmãos, é a mesma coisa. Eles sabem o que eu fiz. Eles também não ficaram contentes. Eles gostariam que e terminasse a Copa do Mundo de outra forma. Eu também. Mas foi assim. É bom evocar o assunto para encerrar esse debate de uma vez por todas. Eu vou carregar esse incidente pelo resto da minha vida. E falar disso constantemente é irritante. É por isso que eu não gosto de dar entrevistas. Eu gosto do concreto e não de falar para não dizer nada.

Mas a cabeçada em Materazzi é um gesto indelével. Em Bangladesh, as crianças empunhavam faixas alusivas a ele. Em Alger, no Estádio 5 de Julho, uma delas dizia: “A dignidade de um homem vale mais que uma Copado Mundo”.
Eu vi essa faixa. Eu também não me esqueci disso. Acontecem coisas na vida que podem te deixar vulnerável. Em certos momentos, somos humanos. O que eu quero transmitir às pessoas é isso: quem não cometeu erros na vida? É verdade que o meu foi um pouco maior, mais visível.

O que você sentiu quando o técnico da seleção francesa, Raymond Domenech, declarou ao jornal “Le Parisien” que “ele poderia ter siso Materazzi, que o italiano fora o homem da final”?
Só quero responder à próxima pergunta.

Isso te aborrece?
Não. Apenas quero responder à próxima pergunta. Não quero falar disso.

A conquista da Copa de 1998 fez dez anos. O que ficou?
Fomos campeões! Na França, no nosso país. Para a nossa geração foi uma sorte extraordinária. Foi uma bênção. Eu tinha 26 anos, cheguei à maturidade. Na minha opinião, tínhamos a melhor equipe do mundo. Foi fantástico compartilhar a vitória com milhões de pessoas. Foi mágico. Falar disso dez anos depois ainda me arrepia. Campeão do mundo não é fácil, é uma vez na vida.

A vitória foi além do aspecto meramente esportivo, suscitou esperanças na sociedade francesa. Falou-se muito na geração “blanc, black, beur” [branco, negro, magrebino]. Vimos depois que esse sonho se desfez, houve rebeliões na periferia das grandes cidades francesas.
A vida é assim. Seria necessário ser campeão do mundo a cada dois ou quatro anos. A sociedade continua evoluindo, independentemente da Copa do Mundo.

O humorista Jamel Debbouze, francês de origem marroquina, disse que “fazer dois gols de cabeça na final de uma Copa o Mundo, quando se leva o nome de Zinedine Zidane, é um gesto de dimensão política”.
O gesto tem uma dimensão, mas para mim ela se restringe ao jogo. Depois, as conseqüências, já são outra coisa. Até para mim a vida mudou depois daqueles dois gols. Mas, no começo, é o jogo que me interessava. Aliás, por que as pessoas têm apreço por mim? Não devo esquecer nunca disso: porque eu acrescentava algo ao jogo. Ponto. E não pelo que eu dizia ou pensava. Nunca quero perder isso de vista. Não quero ser porta-voz de nada.

Como você encara o seu futuro?
Antes de mais nada, há o presente. Lancei há pouco um DVD [“Zidane, le dernier match” (Zidane, o último jogo), dirigido por Alix Delaporte e Stéphane Meunier]. Participei da rodagem e da montagem. Normalmente, para cada projeto, eu consulto pessoas próximas, que me conhecem. No caso do DVD, eu tomei a decisão sozinho, o que é raro. No filme, eu quis homenagear as pessoas próximas e também deixar uma referência para os meus filhos, que nunca me vira jogar. Tinha muita confiança no Stéphane Meunier e aceitei que ele entrasse na minha intimidade, na minha casa, que encontrasse minha família. Preferi fazer um DVD do que um livro.

Uma biografia não autorizada, escrita elo jornalista Besma Lahouri, deve ser lançada em breve. O que você tem a dizer?
Ouvi falar dela. Não tinha vontade de fazer uma biografia, preferi fazer eu mesmo um DVD do que deixar outros falarem de mim. O problema, como eu não falo quase nunca, é que alguns querem falar no meu lugar. Não queria contribuir com um livro de maneira episódica, sem estar associado a ele. Também não queria um livro superficial como alguns que existem por aí, onde se dizem besteiras sobre Johnny [Hallyday, estrela da música pop francesa] ou outro qualquer.

Falando em Johnny Hallyday, em outubro de 2003 ele disse que passou temporadas e uma clínica de reoxigenação do sangue, que teria sido indicada por você.
Não sei se ele disse isso mesmo. Já nos cruzamos duas ou três vezes, mas quando ele diz que vai trocar de sangue com Zizou... Nunca estive em uma clínica com Johnny. Nunca! A única coisa que faço no gênero, há doze anos, é ir à clínica de Henri Chenot, em Merano. É uma espécie de spa aperfeiçoado, onde faço uma cura que permite eliminar as toxinas do organismo. Durante uma semana faço alimentação especial e massagens.

Porque você não respondeu a Johnny na época?
Não posso passar o tempo respondendo ao que se diz a meu respeito. Muitas coisas me perturbam e isso me anima a falar menos ainda. O exemplo recente que me vem à mente é o de uma revista sobre economia. Eles me ligaram ara fazer um artigo, mas eles não compreenderam que, eu não tinha nenhuma necessidade desse artigo. Sempre tentei resguardar minha vida privada, para viver o mais normalmente possível. Não tenho vontade de me estender sobre minha vida privada. Depois, quando alguém faz isso no meu lugar e diz besteiras, eu fico decepcionado. Não posso entrar na roda-viva de desmentir tudo que se diz. Você não sai disso nunca.

O que você pretende fazer no futuro próximo?
Não tenho um objetivo, mas voltar ao futebol me agradaria. Mas não sei dizer exatamente de que maneira.

Em Marselha?
Sim, mas não no Olympique. Tenho um projeto em Marselha, que tento realizar com meus irmãos e alguns amigos. A idéia é construir minicampos de futebol de grama sintética pois, em Marselha, quando você está com um grupo de amigos, não pode dizer “vou jogar futebol durante duas horas”. Isso não existe lá. Você pode jogar em u terreno baldio, na rua, mas não há espaços organizados para o futebol. O projeto consiste em criar um verdadeiro complexo esportivo para o futebol urbano. Campos menores, para partidas com equipes de cinco jogadores, com traves, monitores de vídeo para rever as jogadas, uma sede para assistir aos jogos. Muitos campos dos bairros do Norte de Marselha são abertos aos estudantes, às associações. Mas as crianças não têm acesso a eles. A prefeitura deve se associar ao projeto, mas anda não sabemos como. Mas o projeto vai se tornar realidade. Para mim, isso é algo concreto, útil e agradável. Uma coisa real, que pode mudar o cotidiano das pessoas. É de futebol que eu gosto, do futebol da partilha e do prazer: é ele que eu tenho vontade de valorizar.

Nesta edição
Rede Social
Newsletter
Cadastre-se para
receber tudo sobre o
mundo do Futebol

Email
Enquete
Qual equipe vencerá o Campeonato Brasileiro de 2009?
São Paulo
Palmeiras
Flamengo
Atlético Mineiro
design por IT Soluções