Sandra do Maraca
Presença certa no Maracanã em dias de jogo do Flamengo, Sandra de Sá mostra que as mulheres chegaram de vez a um dos últimos redutos do machismo, o futebol. Ela fala com propriedade sobre o rubro-negro, a CBF, a Copa de 2014 e muito mais.
30/11/2009
Por Fernando Mendes
Em 1980, o Brasil conheceu Sandra Cristina Frederico de Sá, cantora de soul music com voz poderosa e notável talento. Sandra de Sá, como é conhecida, apresentou a canção “Demônio Colorido” no festival MPB 80, realizado pela TV Globo, e foi um dos destaques. Daí para a frente, firmou-se no país como uma das referências da “música preta brasileira”, termo cunhado por ela mesma.
Sandra cresceu em Pilares, subúrbio do Rio de Janeiro, lá pegou gosto pelo futebol e se apaixonou imediatamente pelo Flamengo. Freqüentadora assídua do Estádio do Maracanã em partidas do rubro-negro, Sandra acompanhou o esquadrão flamenguista, comandado por Zico, Adílio, Júnior, Andrade e companhia, que levantou os troféus de campeão carioca em 1981 e 1986, campeão brasileiro em 1980, 82 e 83, além dos títulos da Libertadores da América e do Mundial Interclubes, em 1981.
A relação da cantora com o clube da maior torcida do Brasil vai além das arquibancadas, pois ela chegou ser diretora social do Flamengo no início desta década. Somada essa experiência aos ensinamentos do vascaíno tio Jorge, que a levou pela primeira vez a um estádio, Sandra é uma autoridade quando o assunto é futebol, demonstrando que as mulheres chegaram de vez para demolir o mito de que o esporte bretão é “coisa de homem”.
Como surgiu a sua paixão pelo futebol?
Isso aí não dá nem para eu ir a fundo, porque desde os quatro anos de idade sou rubro-negra. Sempre gostei de futebol; meu tio, sempre fui muito grudada nele, sempre gostou de futebol, meu padrinho também. É engraçado que meu pai não entende não, até gosta, mas eu é que sempre gostei muito.
O Flamengo foi de cara seu time do coração, nunca deu chances para outro time?
Nunca teve chance pra ninguém. Ouvia meus tios, eles escutavam o jogo no rádio e eu ouvia sempre muito “Dida, Dida, Dida...” e no fundo comecei achando o máximo o cara chamado Dida, todo jogo eu só falava o nome dele. Meu padrinho que me disse que ele era do Flamengo, aí virei Flamengo.
Quando foi ao estádio pela primeira vez?
Meu tio Jorge me levou ao estádio pela primeira vez, ele é vascaíno. Foi uma coisa muito louca, eu ouvia pelo rádio, a gente não via na televisão, era no rádio mesmo. Eu ouvia no rádio e meu tio ia sempre no Maracanã com o pessoal da rua. Aí eu tanto insisti que ele me levou. E foi justamente num Flamengo e Vasco, a gente ficou na torcida mista.
Tem o hábito de freqüentar o estádio?
Só não vou ao Maracanã quando não estou no Rio de Janeiro.
Qual foi a partida que mais marcou sua vida?
Cara, tem uma coisa arrepiante: quase todas as vezes que fui no Maraca e vi o Zico jogar foi uma coisa que, para mim, adolescente, sempre foi marcante. Ver o Zico, aquele campeonato em que o Rondinelli marcou de cabeça no fim (contra o Vasco, na final do campeonato carioca de 1978). Essa era Zico, década de 80, foi a época mágica do Flamengo. Uma coisa que também marcou bastante, mais recentemente, foi uma final entre Flamengo e Vasco (final do estadual do Rio de Janeiro de 2001). No primeiro jogo, o Vasco acabou ganhando, mas tinha um segundo jogo. Durante a semana o pessoal sacaneou, fiquei nervosa a semana inteira. Justamente no dia do segundo jogo eu estava em São Paulo, pois ia fazer um show. Vi o jogo no hotel, era um sábado, e já estava quase desencantada quando teve aquele gol histórico do Pet. Abri as janelas do hotel e comecei a gritar, a xingar. As pessoas olhavam e não entendiam, minha empresária entrou no quarto e mandou eu calar a boca e eu mandava todos para aquele lugar, gritava, parecia uma louca. Tomamos no ouvido a semana inteira, então foi um estado de graça. No dia seguinte, inclusive, fui ao estádio ver Palmeiras e Corinthians.
Você torce para o Corinthians em São Paulo?
Olha, em todos os lugares que vou, sou Flamengo. Me perguntam isso e eu sempre respondo que sou Flamengo em São Paulo, no Rio de Janeiro, em qualquer lugar. Mas ao mesmo tempo em que eles têm essa rivalidade sobre quem tem maior torcida, eu acho o Corinthians um tanto quanto simpático.
Qual o seu grande ídolo no futebol?
Sou Flamengo por causa do Dida, mas eu era muito pequena na época. Já o Zico eu vi jogar. Só de falar nesse nome me dá arrepio!
Como você vê a situação atual do Flamengo?
Acho que não é nem a fase atual, mas já vem de algum tempo. Foi uma administração que afundou de vez e eu vi isso acontecer, eu estava lá dentro. Quando começou a acontecer, eu desconfiava que ia dar no que está dando, uma série de coisas desviando, acontecendo e eu falava “isso não vai dar certo...” e o coração fica a mil. Mas sempre digo que a instituição é maior do que qualquer coisa que possa acontecer. Não vai ser a curto nem médio prazo, mas tenho certeza de que sairemos dessa porque somos muito maiores do que qualquer crise.
Fale do seu violão com a estampa do Flamengo.
Tenho dois e vou fazer um terceiro; até usei os dois no meu último show. Todos os meus violões têm nome: tem o Zico, Júnior, Adílio, Andrade...
Como você vê o crescimento da mulher na crônica esportiva?
Não é de agora que a mulher passou a entender de futebol, mas antes ela não podia entender. Sempre conheci futebol, discuti futebol com várias mulheres. A questão é preconceito, não é que agora abriram o espaço para elas, mas a mulher está conquistando o espaço, é não ter medo. O que a mulher tinha medo antes era de ser chamada de “mulher macho”, “paraíba”, essas coisas, “sapatão”, só porque gosta de futebol ou joga futebol. Você vê tantas mulheres que jogam futebol, casadas, mulheres lindas como a própria Milene (Domingues), então não tem nada a ver. Os caras só faziam isso para não perderem espaço. Quando a mulher se empenha, faz direito, é disso que os marmanjos tinham medo.
Como você vê o futebol feminino?
Eu vinha lutando no Flamengo, nós chegamos a ter um time feminino que disputou campeonatos, dei força, mas realmente na situação em que estávamos a prioridade era pensar em pagar dívidas e solucionar os problemas da melhor maneira possível. Mas o futebol feminino é mais puro, como tem aquela palavra que o Joel (Santana) usa, é mais “aguerrido”. Acho que tem que dar força pras mulheres, tem muita menina jogando muito, a própria Marta, mas não só ela, todas as da seleção, acho um crime que não tenham espaço aqui. Não basta ver os homens saindo e ainda as meninas têm de jogar fora do país. Tem que ter mais consciência do próprio governo, acredito que o Orlando Silva está se empenhado nisso, ele é um grande ministro, confio nele, gosto dele e através dele o futebol feminino pode ganhar força.
Já jogou futebol?
Eu sou muito ruim, sempre fui muito ruim, mas acho que se, de repente, nascesse agora, fosse criança, adolescente, acho que jogaria futebol. Hoje em dia falar que uma mulher joga futebol é mais fácil, tanto que hoje jogam fora, na Europa, Estados Unidos... Na época, imagine? Imagine na década de 60, uma mulher querer jogar futebol?
O que pensa da seleção brasileira dirigida pelo Dunga?
Acho que ele está meio maluco, mas não sei, acho também que a gente fala muito do Dunga e acho que coisa é mais em cima, é mais uma questão da CBF mesmo. A coisa ali dentro funciona de uma maneira que a gente não entende muito, não é só jogar nas costas do Dunga. O próprio sistema, essas coisas dos jogadores, os caras lá de fora são quem mandam, mas como reclamar se eles que sustentam os jogadores? Quem está errado e quem está certo? Acho que, não falando mal, mas sendo realista, a maioria dos jogadores tem a cabeça fraca, um cérebro inibido e aí sempre aparecem aqueles espertos, não indo contra empresários, mas do mesmo jeito que tem artistas bons e maus, bons e maus profissionais tem em todos os setores, mas tem muitos aproveitadores também. Hoje em dia o cara começa a jogar e com 12 anos o empresário bota grana na mão do pai, ele sai do país e isso deixa a cabeça meio balançada. Quando chega nessa época de falar em seleção, todo mundo está meio pirado. Vamos brigar porque o time não liberou o cara? Mas são os caras que pagam o salário, o Manchester United, o Real Madrid, eles que mandam. E aqui a nossa economia é precária, você pode ver que não tem um clube brasileiro, nem o São Paulo, que tenha uma situação confortável. Alguns tem melhor preparo, mas nenhum tem estrutura para trazer os grandes jogadores.
O que o futebol tem a ver com a música?
Qual é a festa do futebol? A grande graça do futebol é a briga de gritos de torcida, um canta uma música, o outro canta a música com outra letra. Músicas, de repente, que você ouve no rádio, como “Sorte Grande” (de Ivete Sangalo) vira canto de torcida. É como a música da União da Ilha, a música do Neguinho da Beija-Flor, então não dá para separar o futebol da música. Imagina o jogo rolando no silêncio ou só com os caras falando, xingando o juiz ou o jogador. Como a torcida saúda os jogadores? É com musica, cada um tem a sua saudação, cada jogador tem sua música, cada time tem a sua, imagine o Maracanã, o Pacaembu, a Vila Belmiro, imagine o estádio sem música?
Você foi diretora social do Flamengo. Como foi essa experiência?
Foi uma coisa difícil, eu tentei fazer um trabalho social, mas toda atividade que rola no clube é ligada ao futebol, muito ligada a certas coisas e muitas coisas que você quer fazer, mas não consegue por falta de grana também, uma série de coisas. É muito difícil, inclusive, fazer um trabalho moderno, uma coisa que trava muito dentro de um clube é o tal do conselho, tem muita briga interna, de repente você está com um projeto legal, mas aí uma pessoa não gosta da outra por qualquer motivo e, antes de pensar no projeto, trava tudo porque é de tal pessoa. Mas tenho fé que isso vá mudar. De repente você quer fazer coisas incríveis, mas cabeças retrógradas impedem que se façam coisas novas para trazer mais gente, fazer mais dinheiro para o clube. As pessoas não ousam, não arriscam, é muita gente pensando no próprio bolso, pouca gente pensando na instituição.
Qual foi a maior decepção que já teve no futebol?
Essa última derrota da seleção foi decepcionante e o Flamengo, quando perdeu a Libertadores no Maracanã, podendo perder por 2 gols de diferença e acabou tomando 3 [do América do México]. Fora isso, uma grande decepção que tive foi quando o Edmundo Santos Silva foi eleito no Flamengo. Ele prometeu que ia fazer e acontecer, pedindo aos meninos que votassem nele e tudo mais, mas começou a fazer obras que até hoje estão incompletas. Muita coisa que aconteceu foi graças a essa gestão, foi decepcionante pra mim, e eu vi a decepção do meu filho, dos amigos, da garotada que apostou nele.
Decepcionou-se com o Ronaldo por ele ter assinado com o Corinthians?
Estou altamente “bolada” até hoje. Pelo amor que eu tenho pelo Mengo. Em termos de diretoria, o Flamengo pode ter muitas falhas e vacilos, mas acho que não é legal se o cara vai ao programa de televisão, bate no peito, jura amor ao Flamengo, e de repente “fui”. É um pensamento meu, não tenho como saber qual é o fato real, não posso afirmar nada, não estou na cabeça do Ronaldo nem na dos dirigentes. Sou amiga dele, torço por ele, como ser humano, homem, cara empenhado que é, mas sou rubro-negra.
Ele dará a volta por cima novamente?
Acredito que sim.
Como você encara a Copa de 2014?
Eu acho que será um bom evento, tem muita gente achando o contrário, que será desorganizado, mas penso que o Brasil vai surpreender. Só acho que o povo tem de ajudar também. O povo tem mania de jogar em cima do governo, mas, por exemplo, o Maracanã tem cadeiras numeradas, mas vi outro dia uma mulher falando “Ah, eu paguei então vou sentar onde quiser”. O povo tem que se educar, chegar junto, não adianta querer que o governo faça as coisas se o povo não colabora. Falei isso da mulher para dar exemplo de como a gente tem que se educar. Falamos em primeiro mundo, mas temos que se espelhar em certas coisas, a organização depende o povo também.
Como viu a polêmica entre o goleiro Bruno e o Andrade, auxiliar-técnico? Bruno disse que Andrade, ex-jogador do grande Flamengo de Zico e Júnior, não havia ganhado nada.
Ainda bem que o Bruno pediu desculpas, ele se tocou a tempo da besteira que tinha feito, das calamidades que ele falou. Respeito o Bruno, ele é um cara legal, meu amigo, mas ele surtou. Um rubro-negro de verdade, que saiba da história do Flamengo, jamais poderia ter falado isso. Mas de repente a gente pira, surta, deve ter sido um momento de piração dele.