Uma pintura de defesa
Enquanto se recuperava de uma fratura na tíbia, Zetti resolveu usar as mãos de uma maneira inusual para um goleiro. Nesta entrevista, o técnico e ex-arqueiro fala sobre uma de suas grandes paixões, a pintura
03/11/2009
Por Marcelo La Farina Cabrera
“Você arrancou de mim algo que jurei nunca mais falar”, confessa um tímido Zetti, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. O tetracampeão mundial recebeu a Invicto para conversar sobre um tema pouco comum: a pintura.
Em 1988, quando defendia o Palmeiras, clube que o revelou, Zetti passou por um dos momentos mais difíceis da carreira. Em uma partida contra o Flamengo, no Maracanã, chocou-se violentamente com o atacante Bebeto, que seis anos depois também faria parte do elenco tetracampeão. Zetti sofreu uma fratura na tíbia direita. Durante os 45 dias que carregou uma pesada bota de gesso, que ia até a virilha, e os penosos seis meses de recuperação, ele decidiu dedicar-se à arte. Começou um curso de pintura para dominar as técnicas, a composição, o uso das cores.
“Mas não foi tão simples assim. Quando terceiros souberam que eu estava pintando, a situação mudou de figura. Não demorou para a imprensa descobrir também. Não me deixavam em paz. Começaram a avaliar minha pintura como a de artista profissional. Eu era um jogador de futebol me recuperando de uma lesão, caramba. Isso me incomodou muito, tanto que decidi não mais tocar neste assunto”, desabafa.
Nascido em Porto Feliz (SP) em 1965, Armelino Donizetti Quagliato atuou como profissional por 15 anos, tendo vestido as camisas do Palmeiras, São Paulo, Santos, Fluminense, União Barbarense e Sport. Uma vez recuperado da fratura, perdeu a posição de titular no gol palestrino para Velloso e se transferiu para o São Paulo, onde desbancou o ídolo Gilmar e sagrou-se bicampeão paulista (90 e 91), campeão brasileiro (91), bicampeão da Libertadores (91 e 92), bicampeão da Recopa Sul-Americana (93 e 94) e bicampeão mundial de clubes (91 e 92), além de ter sido convocado como reserva imediato de Taffarel para a Copa do Mundo dos EUA, em 1994.
Começou a carreira de técnico em 2003, no Paulista de Jundiaí. Passou por mais de dez clubes em três regiões diferentes do país, mas nunca permaneceu mais do que duas temporadas no cargo. Em maio foi contratado para dirigir o Paraná na série B do Brasileirão; dois meses depois, a diretoria o dispensou, apelando mais uma vez à prática de culpar somente os técnicos pelas más campanhas dos times – prática corriqueira no futebol brasileiro.
Mas o ex-arqueiro também tem outros hobbies. Para manter o fôlego dos tempos de atleta, Zetti pedala pelas noites paulistanas, acelera seu jipe 1950 pelas trilhas do interior do estado e participa de partidas de showbol.
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Você começou a pintar no fim da década de 1980. Você teve algum contato com arte antes disso?
Na verdade eu sempre gostei de desenho, desenho livre. Em qualquer lugar que eu sentasse, um bar, um restaurante, onde fosse, sempre pegava o guardanapo e ficava rabiscando. Mas eu não tinha uma coordenação específica para aquilo, tinha mesmo o dom, sabe? Eu costumava fazer cópias de imagens que me chamavam a atenção. Até mesmo para guardar como lembrança. Quando era criança, vivia copiando desenhos de gibis. Ainda jovem fiz um curso de desenho no Senac de Capivari [interior de São Paulo], mas nunca achei que isso poderia evoluir como acabou acontecendo.
Funcionava como uma terapia?
Sim. E além de funcionar como terapia ajudou a me descobrir um pouco mais, a descobrir um gosto mais apurado pela arte, por conhecer culturas diferentes.
E o que te fez olhar de novo para a arte, mais especificamente para a pintura, após a lesão?
Eu acabei ficando muito tempo parado, ocioso mesmo. Foi uma fase difícil, fiquei mal para valer. Afinal, o esporte era, e é, minha vida. Ficar afastado por seis meses era tempo demais. Então resolvi que era a hora certa para me aprofundar na arte, fazer um curso, aprender a dominar algumas técnicas, o uso das cores. Foi realmente importante. E, no final, acabei me envolvendo até demais. A repercussão foi muito grande e a imprensa, na época, começou a criticar a minha pintura como se eu fosse um artista e não um jogador de futebol.
Quando algum dos times que defendeu jogava no exterior, você conseguia alguma brecha para visitar museus, exposições?
Não dava. Era tudo muito corrido. Tenho até uma história curiosa: uma vez com o São Paulo, em Madri, o time ficou hospedado em um hotel a dois quarteirões de um dos maiores museus da Espanha [o Museu do Prado] e, numa tarde, toda a comissão técnica saiu para conhecer a cidade, o centro de Madri. Eu tentei ir até o museu, mas o Telê [Santana] não deixou...
Ele sabia do seu gosto pela arte?
Sabia. Mas disse que estávamos lá para trabalhar e não para passear, mesmo sendo uma viagem para fazer amistosos. Acabei obedecendo e voltando para o meu quarto. Nunca entendi o porquê de ele ter proibido; um passeio em um museu não afetaria meu rendimento dentro de campo de maneira alguma. Mas nunca questionei o comando do Telê. Sei que em algum ponto ele tinha razão. Em outra oportunidade, no Equador, em 1993, a Seleção [que disputava a Copa América] ficou hospedada na cidade de Cuenca, a terceira maior do país e recheada de história. Tive a oportunidade de entrar em contato com muito da cultura local, com as tradições incas e tudo mais. Cuenca é, inclusive, patrimônio mundial declarado pela Unesco.
E aqui no Brasil? Frequenta museus? Tem algum favorito?
Confesso que essa “onda” de arte, de pintura, durou até 1992. Aí vieram os filhos [um menino de 16 e duas meninas, de 14 e 13 anos], o futebol acabou ocupando quase 100% do meu tempo. Estou há muito tempo sem me dedicar a isso. Mas durante os quase cinco anos em que me dediquei à pintura cheguei a fazer um curso livre de história da arte e guardo comigo as coisas que estudei.
Quais são os pintores que mais te agradam?
Eu admiro o Picasso, a Tarsila do Amaral – até mesmo por ela ser de Capivari, pertinho da cidade onde nasci. Conheço um tanto da história da Tarsila. Hoje em dia a pintura dela é algo já enraizado em todos os brasileiros, mas eu aprecio bastante. Quanto ao estilo... Eu faço coisas realistas, gosto de reproduzir o que me agrada. Quando comecei com as aulas gostava muito de natureza morta... Os utensílios de mesa, frutas... Dediquei-me bastante a isso. Fiz muitos retratos também, reproduções de fotografias. Meu professor na época, o Maurício Estevanovic, disse que cada um gosta de uma coisa, que isso é algo muito relativo; concordo plenamente.
Qual a técnica que você utilizava?
Comecei mexendo com pastel e me adaptei muito bem. Acho que por você acabar não usando um pincel, e sim os próprios dedos, as mãos. É a forma mais direta de equilíbrio entre a mente e a mão. Depois disso, aprendi a trabalhar com óleo sobre tela e tive alguma dificuldade no começo. Aprendi que o branco, na verdade, nunca é branco, e que há uma infinidade de tons de azul que eu nem conseguiria nomear. Pintura é como o futebol: você tem de praticar constantemente. E isso você só aprende quando conhece as técnicas e tem a ajuda de alguém mais experiente. Fiquei por volta de sete meses estudando técnicas.
Certamente sua presença causou algum impacto nos outros alunos na primeira aula.
Claro, claro. Foi um impacto grande. Pra mim foi difícil, porque acabou gerando uma cobrança muito grande. Sentia-me com a obrigação de mostrar qualidade, ainda mais por ser um cara conhecido; não era tão famoso ainda, mas em 88 eu já havia ficado 13 jogos sem tomar gols pelo Palmeiras. Existia uma cobrança, sem dúvida.
E qual é o espaço que a pintura ocupa na sua vida hoje?
É de apreciação apenas. Mas tenho vontade de retomar isso um dia.
Quando?
Quando tiver tempo. Ainda não sei.
Outras figuras notáveis no mundo do futebol, como Carlos Alberto Parreira e Osmar Santos, também se dedicam à pintura. Você conhece o trabalho deles?
O Parreira é um ótimo pintor, domina muito bem a técnica do óleo sobre tela, pinta marinas belíssimas. Já estive na casa dele e em algumas exposições que ele realizou em São Paulo e pude ver grandes obras. E a dedicação do Osmar é fantástica. Costumo encontrá-lo na Riviera [praia no litoral norte de São Paulo], onde ele costuma participar de leilões; ele é um grande amigo, sou até suspeito para falar.
Falando em leilões, você já pensou em vender seus quadros? O que você faz com eles?
Na primeira aula que tive com o Maurício, ele disse: “nunca se apaixone por um de seus quadros. Você nunca vai conseguir vender ou dar algum deles”. E foi isso o que aconteceu comigo. Era difícil de me desfazer deles. Se eu precisasse viver da arte talvez não tivesse me apaixonado. Quase todos os quadros estão comigo, a não ser uns poucos que acabei dando a alguns amigos próximos.
Outro de seus hobbies era o ferrorama. Isso continua até hoje?
Se eu disser que estou montando uma maquete, você acredita? Sou apaixonado por miniaturas. Comecei a montar maquetes de ferrorama em 1993, quando o São Paulo foi para o Japão algumas vezes. Comprava peças, trazia para o Brasil e ia montando aos poucos, sempre com o clássico pensamento de que um dia meus filhos me acompanhariam nisso. Estou realizando esse sonho agora. Nessas férias de julho, meus três filhos me ajudaram a montar uma nova cidade em casa. É uma atividade muito gostosa.
Qual o tamanho da “cidade”?
Se não me engano, deve ter uns 15 m². É grande! O mais legal é que para isso não há idade; todo mundo que vai à minha casa e vê a maquete fica impressionado, elogia. E é algo que me deixa feliz. Passar aquele tempo com os meus filhos...
Você tem outro hobbie?
Eu sou um cara muito ativo, gosto de manter a adrenalina sempre lá em cima. Não paro, sempre estou procurando curtir a vida. Eu tive uma fase em que colecionava selos, influenciado pela família, mas parei. Demanda muito trabalho, é muita informação. Eu gosto de fazer trilhas, tenho um jipe de 1950. E pedalo também. Ando de bicicleta em São Paulo com um grupo ali do bairro da Pompéia praticamente todas as terças e quintas-feiras, mas quase ninguém me reconhece porque estou sempre de capacete, óculos escuros.
Isso começou quando?
Assim que parei de jogar profissionalmente. Precisava fazer alguma coisa, algum esporte. É algo que me faz bem. E tinha de ser algo diferente, porque jogar futebol de salão ou society não dá certo. Mesmo com os amigos. Um cara vai lá e marca um gol em mim e fica tirando onda.
Mas do showbol você participa...
O showbol é diferente. É um encontro de ex-jogadores que sempre foram amigos. A gente acaba relembrando as histórias que aconteceram durante a carreira, é gostoso. Posso dizer que o showbol é como uma benção para os ex-jogadores, porque continuamos em evidência, o torcedor apaixonado acaba tendo mais uma oportunidade de rever seu ídolo.