Será que alguém tira a 9 dele?
Ele não se casou em castelo, não tem fama de playboy e nem é capa de revista de celebridades. Mas quando o assunto é bola na rede, o cara é fabuloso
03/11/2009
Por Henrique Rodrigues
Bad boy como Romário, centroavante da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1994, ele não é. Tampouco uma celebridade como Ronaldo, o camisa 9 em 1998, 2002 e 2006. Natural de Campinas e prestes a completar 29 anos, Luis Fabiano também está prestes a ser o principal responsável pelos gols do Brasil no Mundial da África do Sul.
Se o marketing não é um diferencial, os números o credenciam para assumir o posto. Na era Dunga, são 19 gols em 21 jogos. “Estou correspondendo à altura, e é uma média excelente”, disse, em entrevista exclusiva à Invicto.
Entretanto, sempre que se apresenta à seleção, Luis Fabiano convive com perguntas sobre Ronaldo e Adriano, que voltaram a brilhar no futebol brasileiro. O fato de não ser unanimidade não o incomoda. “Eu não quero convencer todo mundo, quero convencer o treinador. É ele quem escala”.
“O que falta para ser [unanimidade] eu não sei. Estou fazendo bons jogos pela seleção e em momentos importantes tenho aparecido. Infelizmente, ainda sinto que, apesar de ser elogiado, existe algum tipo de, sei lá, desconfiança. Sempre se buscam nomes de atacantes para a seleção, mas estou tranquilo nesse ponto. Sei que o treinador confia no meu trabalho, e isso é o que importa. O que os outros falam não quero nem saber”, completa o atleta do Sevilla.
Ronaldo e Romário, seus antecessores, servem como modelo. Luis Fabiano revela que os dois astros são referências para a sua carreira. “O que marcou para mim foram as Copas de 94 e 2002, porque é lógico que não vou gostar de derrota, e sim sempre de vitória. Ambos são fantásticos. O Romário foi o primeiro cara que passei a admirar, o primeiro ídolo que tive. Foi quando comecei a entender de futebol. O Ronaldo atualmente é o cara que eu mais vejo, que eu mais gosto, foi o melhor atacante do mundo”.
Todos são goleadores, mas os estilos são diferentes. Ronaldo e Romário são considerados artilheiros geniais, enquanto Luis Fabiano adota mais a fama do homem de área trombador e matador.
Ele prefere valorizar a sua característica. “Cada um tem a sua maneira de jogar, e sou totalmente diferente deles. Os dois foram feras, mas eu também tenho os meus momentos e sei fazer gols. Também tenho uma certa qualidade”, orgulha-se.
Bad boy, não!
O torcedor do São Paulo lembra bem de Luis Fabiano. Além dos 118 gols em 160 jogos com a camisa tricolor, o centroavante foi protagonista de uma pancadaria que entrou para a história do futebol. Os adversários eram os argentinos do River Plate, e a confusão começou após o árbitro finalizar a partida no Morumbi, em 2003. O então camisa 9 tricolor não iniciou a briga, mas surgiu do nada para dar duas voadoras em rivais do River. Na Espanha, trocou socos com o uruguaio Diogo, durante o jogo do Sevilla contra o Zaragoza, em 2007.
Agora, o centroavante da seleção rechaça esse perfil de jogador polêmico. “Isso não tem nada a ver comigo. Dentro de campo, antigamente eu tinha essa imagem. Mas bad boy envolve o dia-a-dia, o que acontece fora de campo. Não combina comigo”. Em relação às brigas, ele assegura que fazem parte do passado. “A única vez foi aquela no São Paulo. Já faz muito tempo que não sou expulso de campo. Com o tempo, você amadurece, e hoje sou outro jogador”.
O campineiro revela ter uma vida familiar com a esposa e as duas filhas, em Sevilha, cidade do sul da Espanha. “É um lugar maravilhoso para se viver. É uma cidade turística e procuro passear com minha esposa e minhas filhas. Fica perto de Portugal e nas horas vagas também vou para lá. Procuro matar o tempo dessa forma, porque a gente sente saudades do Brasil. Mas levo uma vida tranquila, não sou mais solteiro (risos)”.
A postura de rapaz bem-comportado casa com o estilo do técnico Dunga. Ao assumir a seleção, o capitão do tetracampeonato barrou as estrelas e apostou em jogadores menos badalados. Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, não estão nos planos para a Copa de 2010, ao menos por enquanto. “Claro que, quando o jogador não se mete em polêmica, sempre é favorável. O que eu tenho de mostrar é dentro de campo. Procuro ser um cara reservado. O resto, essa parte de marketing, não funciona para mim”, opina.
Seleção em alta
A temporada de 2009 consolidou Dunga no comando da equipe pentacampeã mundial. O Brasil foi campeão da Copa das Confederações e garantiu vaga no Mundial da África do Sul com três rodadas de antecedência nas eliminatórias sul-americanas. Resultados expressivos foram conquistados diante de arquirrivais – 4 a 0 sobre o Uruguai, 3 a 1 na Argentina, ambos fora de casa, e 3 a 0 na Itália.
Luis Fabiano teve papel decisivo em todos os momentos. É o artilheiro das eliminatórias com nove gols e foi o principal goleador da Copa das Confederações, com cinco. Além disso, balançou as redes nos jogos mais importantes: fez dois gols contra a Itália, dois contra a Argentina e um contra o Uruguai. “Acredito que a maioria das pessoas hoje está satisfeita com o meu trabalho. Vejo enquetes e sempre o meu nome está entre os atacantes. Estou conseguindo ter o meu espaço dentro da seleção”, celebra.
Por mais de uma vez, Dunga já deixou claro que dificilmente alguém ganhará a vaga de Luis Fabiano. "A pergunta está perfeita. São 17 gols em 20 jogos. Como vou tirá-lo do time?”, argumentou o treinador, logo após o Brasil ganhar da Estônia por 1 a 0, em agosto, gol do camisa 9. Em setembro, ele marcou mais duas vezes, contra a Argentina, e aperfeiçoou seus números – ostenta uma média próxima a um gol por partida.
E as frequentes perguntas sobre as sombras de Ronaldo e Adriano não fazem diferença, segundo o atacante. “Sinceramente não me incomoda em nada. Incomodaria se o treinador viesse e falasse alguma coisa. Mas ele sempre me passou confiança e transmitiu que sou uma peça importante dentro do time”.
O “Fenômeno” se rende ao “Fabuloso”
Ronaldo ainda sonha participar de seu quinto Mundial, mas admite que a camisa 9 já tem dono. “O Luis Fabiano está em fase incrível, e não diria que é uma fase. Há muitos anos ele está fazendo muitos gols. Esperou pacientemente pelo seu espaço e o conquistou. É unanimidade merecidamente, pelos resultados e gols importantes tanto no clube quanto na seleção brasileira”, opinou o corintiano, em entrevista coletiva no Parque São Jorge.
Maior artilheiro da história das Copas, Ronaldo planeja ficar na reserva, bem próximo a Dunga, para, quem sabe, ser uma opção no segundo tempo. “Quando a gente é convocado não vem em nenhum lugar escrito que tem de ser titular. Vou ter a humildade que sempre tive, estarei disposto a ajudar e a fazer parte do grupo se for convocado”, comentou.
“Para nós, atacantes, seria uma felicidade grande ter o Ronaldo para aprender com ele. O cara é fera. As portas estão abertas, trata-se de um grande jogador, sempre querido na seleção. Não vejo nenhum problema se ele voltar”, observa Luis Fabiano.
Estreia com Parreira
Luis Fabiano vestiu o uniforme verde e amarelo pela primeira vez em 2003. O então atleta do São Paulo iniciou sua trajetória pela seleção fazendo o que mais sabe. Balançou a rede na vitória por 3 a 0 sobre a Nigéria, resultado que marcou o retorno de Carlos Alberto Parreira ao comando do time pentacampeão mundial.
Com Parreira, foram 12 partidas e seis gols. Entretanto, o campineiro ficou fora da Copa do Mundo de 2006, quando o Brasil fracassou na Alemanha.“São momentos diferentes. Hoje tive uma sequência com a camisa da seleção, correspondi fazendo gols e mostrei que tenho condições de jogar. Em 2004 e 2005, com o Parreira, eu não jogava e perdi espaço”, analisa o atleta.
Apesar de estar em alta com Dunga, ele adota um discurso humilde e ainda não se considera no próximo Mundial. “Ninguém está 100% garantido, mas estou muito confiante por tudo o que fiz”.
A participação na Copa das Confederações, em junho, permitiu que ele tivesse a primeira impressão do que o espera na África do Sul. “Deu para sentir um pouco o que vai ser a Copa, o clima que a envolve, como são os campos. Foi uma experiência legal”.
Volta ao São Paulo
A passagem pelo São Paulo durou quase quatro anos e foi marcada por muitos gols e poucas glórias. Luis Fabiano deixou o clube do Morumbi com um modesto título do Torneio Rio-São Paulo, em 2001, no currículo.
Em compensação, os números impressionam. O centroavante é o segundo maior artilheiro da história do time tricolor em média de gols, atrás apenas de Friedenreich. Balançou as redes 118 vezes em 160 partidas, média de 0,74 gol por jogo.
“Gostaria de ter ganhado um título com a camisa do São Paulo. Seria fantástico. Mas fico feliz por ter deixado meu nome na história do clube como o segundo melhor atacante em média de gols. Vai haver tempo para ganhar títulos”, afirma.
Assim, deixa no ar a possibilidade de retornar. O contrato com o Sevilla termina no meio de 2011. “Não sei ainda o que farei depois, tem tempo até lá. A possibilidade de voltar ao Brasil é pequena, mas existe”, conta. “O São Paulo pode ser uma boa opção porque o Juvenal [presidente Juvenal Juvêncio] é um amigão meu. Isso facilitaria. Mas no Brasil existem também outros clubes espetaculares”.
E o Milan?
No mês de agosto, Luis Fabiano viveu a expectativa de trocar o Sevilla, equipe quase grande da Espanha, pelo Milan, um gigante italiano. Porém, as negociações não frutificaram. Segundo o jogador, a proposta do Milan não agradou os dirigentes. Ele é cauteloso nas palavras, agradece seu time atual, mas demonstra uma certa decepção pelo fracasso na transferência. “Tudo tem um risco. Eu poderia ir para o Milan, não dar certo e ficar sem jogar. Faz parte do passado. Infelizmente não deu certo, e não posso ficar pensando por que não fui. O mais importante para mim é seguir no Sevilla e meter o máximo de gols nesta temporada para continuar na seleção”, comenta. “Nunca pedi para ir para o Milan. Pedi para o presidente valorizar a proposta, porque poderia ser uma oportunidade na minha carreira. Sou muito grato ao Sevilla. Foi o clube que me ofereceu a chance de voltar a ser o Luis Fabiano dos tempos de São Paulo e de voltar à seleção”.